A epidural foi uma invenção fabulosa. Deve ter sido uma mulher que a inventou e merecia uma estátua!, diz, com humor, a fisioterapeuta Isabel Ramos de Almeida. Isabel organiza cursos de preparação para o parto há mais de 20 anos e é com satisfação que observa algumas diferenças. “Há uns anos dedicava uma aula inteira só ao tema da epidural pois as dúvidas e os medos eram muitos! Agora, o principal receio das grávidas é a possibilidade de não terem epidural. 'Em que situações é que podemos não ter epidural?', perguntam.

Tudo Sobre a Epidural

De facto, a longínqua obrigatoriedade do “parirás com dor” já não faz sentido. “A dor funciona como um sinal de que algo está para acontecer, e de resto não tem mais nenhuma função no parto, podendo inclusive ser muito prejudicial para a mãe e o feto. Para a maioria das mulheres, numa escala de zero (sem dor) a dez (dor excruciante), é percebida como muito intensa, normalmente com um valor de oito a dez. Logo, a dor do parto deve ser avaliada, por qualquer forma disponível, desde os métodos naturais aos farmacológicos”, defende Paulo Sá Rodrigues, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia e coordenador de anestesiologia da Unidade Materno-Infantil da Clínica de Santo António.

O que é a epidural

O termo “epidural” é usado pelo público em geral para qualquer técnica de analgesia ou anestesia por bloqueio das sensações dolorosas ao nível de eixo nervoso central, situado na região da coluna vertebral. No entanto, há três tipos diferentes a considerar, como explica Paulo Sá Rodrigues: “A epidural em sentido estrito, em que os medicamentos anestésicos são administrados no espaço um pouco 'à frente' do epidural; e a sequencial, em que se combinam as duas anteriores.

Em Portugal, a técnica mais frequente é a epidural, escolhida em quase 70 por cento dos casos. Nas cesarianas, é mais comum a raquianestesia ou a sequencial. De realçar que a epidural é uma analgesia, o que significa que a abolição das sensações é parcial. Atua sobre a dor provocada pelas contrações uterinas, mas a grávida mantém-se consciente, sente pressão, sentem que lhe estão a tocar, e geralmente não há bloqueio motor.

Lembro-me que foi muito rápido o efeito e que, a partir desse momento, senti um alívio enorme e pude usufruir do momento que estava a viver com outra tranquilidade. À medida que o momento da expulsão se aproximava, eu senti à mesma vontade de fazer força. Nunca perdi a sensibilidade; apenas as dores deixaram de ser insuportáveis”, recorda Isabel Vidas, mãe de duas meninas. No seu segundo parto, teve a experiência oposta: “Não tomei qualquer tipo de epidural e lembro-me do quanto ansiei por ela! Sentia-me completamente descontrolada.
A ausência de tempo para a administração da epidural deu-me uma perspetiva diferente do parto, mas não posso dizer que tenha sido melhor. Foi tudo muito rápido, doloroso e intenso, o oposto da minha primeira experiência”.

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Já não vale a pena?

O momento ideal para a administração da analgesia epidural é, de acordo com os protocolos nacionais e internacionais, o momento em que a grávida decide que precisa de ajuda no controlo da dor e solicita analgesia epidural. Uma vez que o limiar da dor é muito variável de grávida para grávida, “não é possível dizermos que uma grávida com quatro centímetros de dilatação do colo uterino tem mais dor do que uma grávida que ainda só tem um centímetro de dilatação”, esclarece Filipa Lança, responsável pela área de Anestesiologia em obstetrícia do Centro Hospital Lisboa Norte. De acordo com as recomendações da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia, a demora, entre o pedido de analgesia do trabalho de parto e a sua execução, não deveria exceder os 30 minutos.

E quanto à famosa frase “agora já não vale a pena”? Filipa Lança é assertiva: “É para abolir! Vale sempre a pena, desde que a grávida queira. O que pode acontecer é não chegarmos a tempo. Ou seja, entre a preparação de todo o material, o posicionamento da grávida e a realização da técnica podem passar-se facilmente dez a 15 minutos. E depois de administrado o medicamento ainda leva tempo a atuar (mais 15 minutos). Se a grávida tiver dilatação completa, o bebé estiver bem apoiado e for relativamente pequeno, o período expulsivo pode ser inferior a este tempo. De qualquer modo,  vale sempre a pena alertar para o facto de que não basta ter dez centímetros de dilatação para que o bebé nasça. Pode demorar mais de uma hora e, nessa fase, a dor de parto é excruciante. Portanto, vale sempre a pena tentar fazer epidural ou, neste caso, outras técnicas parecidas mas com efeitos muito mais rápido”.

Escolha Individual

Uma coisa é certa: a decisão é da grávida, pelo que deve ser tomada da forma mais esclarecida possível. Nos cursos de preparação para o parto, Isabel Ramos de Almeida costuma “pôr as mulheres a pensar, para a escolha ser consciente”. “Digo-lhes: numa grávida todas as intervenções são muito estudadas. Se a epidural fosse perigosa, não se fazia, pois não é necessária para o bebé nascer!

Paulo Sá Rodrigues dá resposta aos receios mais comuns. "A 'epidural', ou uma das suas variantes, é, de forma validada cientificamente, o método mais eficaz de alívio da dor do parto e o que tem menos efeitos secundários sobre a mãe e o feto. É ainda o método de eleição para a anestesia para cesariana”.

Quanto aos principais efeitos secundários esclarece: “Prurido (comichão), por vezes intenso, parestesias (formigueiros), baixa de tensão arterial, diminuição da força dos membros inferiores, dificuldade em urinar, e náuseas e/ou vómitos. Todos estes sintomas são normalmente ligeiros, toleráveis, tratáveis quando incomodativos, e desaparecem pouco tempo depois do parto”.

E pormenoriza: “Mais raramente, cerca de três a dez casos em cada 1.000, podem surgir cefaleias (dor de cabeça) intensas, com necessidade de repouso no leito ou mesmo tratamento adicional pelo anestesiologista. Em um a três casos em cada 10.000, podem surgir parestesias que demoram até seis meses a desaparecer, raramente permanentes, ou infeção local ou do sistema nervoso.

O grande 'medo' das grávidas, o de ficarem paraplégicas (sem mexer as pernas para sempre) ou mesmo morrerem, é de tal maneira raro, que apesar de devermos falar deles, é como se não existissem!

Como colaborar

Tomada a decisão, o que podem fazer as grávidas para que o procedimento corra o melhor possível? "A grávida deve tentar estar calma e atenta às indicações da enfermeira, que a está a posicionar, e à explicação do anestesiologista durante a realização da técnica. A manutenção da postura relaxada, com a coluna o mais imóvel possível, é extremamente importante. Existem muitas grávidas que pensam que não vão conseguir manterem-se quietas para lhe administrarem a epidural porque estão convencidas de que é necessário muito tempo, mas, normalmente, só precisamos de imobilidade durante dois ou três minutos”, explica Filipa Lança. Isabel Vidal lembra-se bem da experiência: "Não foi difícil, mas no meio de contrações sucessivas é difícil imaginar que há um momento em que temos de estar muito quietas. Todos os nossos medos e fantasmas, fruto das histórias que ouvimos, são projetados nesse momento…

Paulo Sá Rodrigues deixa alguns conselhos úteis: “Se tiverem dúvidas, peçam para falar com o vosso anestesiologista e/ou com o responsável de anestesiologia da sala de partos onde estejam a pensar fazer o parto. Perguntem ao vosso médico obstetra quais as situações em que devem pedir uma consulta de anestesiologia e consultem o site www.vouseranestesiada.com, da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia e usem os contactos indicados. Confiem e felicidades!

Tudo Sobre a Epidural

Epidural em quatro passos

A anestesiologista Filipa Lança explica os principais passos do procedimento da epidural.

  1. O anestesiologista faz a desinfeção das mãos, veste a bata, touca e máscara, calça as luvas e prepara o material todo com cuidado. Enquanto isto, a(o) enfermeira(o) ajuda a grávida a posicionar-se corretamente. A grávida pode ficar sentada ou deitada de lado. O importante é que as costas estejam arqueadas, tipo “gato assanhado” para que o espaço entre as vértebras lombares aumente.
  2. Procede-se à desinfeção da pele e à colocação de um pano esterilizado nas costas, circundando a zona onde se vai realizar a técnica. A seguir, é administrada uma anestesia local com uma agulha muito fina (habitualmente entre as vértebras L3-L4-L5), podendo a grávida sentir um ardor com duração de poucos segundos.
  3. Quando se insere a agulha para pesquisar o espaço epidural, a grávida vai sentindo uma pressão mantida nas costas, mas sem dor. Quando se atinge o espaço epidural, introduz-se através da agulha um tubo muito fino (o cateter epidural) e a agulha é retirada. O cateter é protegido por um penso que impede que se solte. É por este cateter que depois são administrados todos os medicamentos para retirar a dor do trabalho de parto.
  4. Após o parto, e assim que se considera que o cateter já não é necessário, o penso das costas são retirado e o cateter puxado para fora.
Fonte:

Ana Sofia Rodrigues

Pais&filhos

número 293, junho 2015

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